Bruxismo e suas causas emocionais

Vivemos em um tempo em que a velocidade da vida parece não nos dar espaço para sentir. Fazemos, fazemos, fazemos, e ainda assim nunca parece ser suficiente.

Essa sensação constante de insuficiência está intimamente ligada a um problema cada vez mais comum que observo em meus pacientes e que tem lotado consultórios odontológicos em busca de tratamentos: bruxismo, apertamento do maxilar, tensões e dores na cabeça, no pescoço e em outras estruturas que influenciam diretamente a mandíbula.

Os dentistas podem reparar os desgastes causados pelo ranger dos dentes, proteger a dentição com placas e evitar fraturas dentárias. No entanto, essas intervenções, embora importantes, não tratam a verdadeira origem do problema. A raiz dessas tensões costuma estar relacionada a fatores emocionais, como estresse, ansiedade, autocobrança, dificuldade de relaxar e de se conectar com o prazer de viver.

Embora essas questões pareçam muito atuais, frequentemente têm suas raízes nas experiências construídas durante a infância. O bebê conhece o mundo pela boca: no ato de sugar, chupar, morder, balbuciar, chorar ou levar objetos à boca em busca de prazer e conforto. Além da sua função física, a boca também representa uma importante construção emocional, desenvolvida por meio do olhar, do toque, da presença e do acolhimento oferecidos pelos pais ou cuidadores. Por isso, amamentar vai muito além da nutrição. Quando recebe o peito, o bebê também recebe suporte afetivo, algo fundamental para a regulação de suas emoções e do seu sistema nervoso.

Outro aspecto importante do desenvolvimento psicológico é que, para nos adaptarmos ao ambiente familiar e social em que estamos inseridos, aprendemos gradualmente a conter nossa espontaneidade e a inibir emoções naturais, buscando amor, aprovação e pertencimento.

Quando esse processo de adaptação acontece sem um olhar cuidadoso para as emoções, podem surgir repressões que acompanham o indivíduo até a vida adulta, reduzindo o contato com suas necessidades mais genuínas. Cada pessoa interpreta suas experiências de maneira única. Portanto, não é apenas o que aconteceu que importa, mas a forma como aquela criança percebeu e sentiu o que viveu.

Um exemplo simples: quando uma criança expressiva é constantemente orientada a ficar quieta, comportar-se ou ser “boazinha”, e não encontra acolhimento emocional para suas vivências, pode concluir que expressar quem ela é está errado. Aos poucos, deixa de agir espontaneamente e passa a desenvolver uma máscara para ser aceita e amada.

Ao não se sentir verdadeiramente vista, emoções como raiva, medo e tristeza permanecem reprimidas, gerando ansiedades silenciosas, pressões internas e estados persistentes de tensão física e emocional. A incapacidade de ser quem verdadeiramemte se é, se acolher e se expressar a torna insatisfeita com ela mesma e com o mundo.

Na vida adulta, essa dinâmica pode assumir diferentes formas. Algumas pessoas desenvolvem um padrão mais compulsivo, tornando-se excessivamente dedicadas aos estudos ou ao trabalho, por exemplo. Outras tornam-se perfeccionistas, altamente exigentes consigo mesmas e permanentemente ansiosas. Embora frequentemente sejam pessoas comprometidas com suas metas pessoais e profissionais, acabam se afastando de suas reais necessidades emocionais e dos próprios limites.

Para esses indivíduos, relaxar pode representar uma ameaça inconsciente. Assim, apertam a boca, os dentes e até os afetos como uma forma de manter a vida sob controle. A dificuldade de soltar e confiar permanece mesmo durante o sono, favorecendo o desenvolvimento do bruxismo noturno.

Mas afinal, o bruxismo tem cura?

Antes de tudo, considero fundamental compreender o que está por trás dessa e de outras tensões de origem emocional. Precisamos deixar de acreditar que soluções rápidas e paliativas são capazes de resolver questões complexas. Placas para bruxismo, relaxantes musculares para DTM (disfunção temporomandibular) e até mesmo o popular botox podem aliviar sintomas, mas não tratam a causa profunda do problema.

Para liberar essa pressão interna construída ao longo da vida e tratar o apertamento da boca de forma mais efetiva, é importante um trabalho integrado entre corpo e mente. Esse processo permite acessar e liberar padrões emocionais e memórias corporais, favorecendo a reconstrução de uma relação mais respeitosa, afetiva e consciente consigo mesmo — mesmo que esse cuidado não tenha sido plenamente recebido no passado.

Felizmente, isso não significa passar anos revivendo a história em terapia. Muitas vezes, o caminho está em trabalhar aquilo que permaneceu registrado no corpo.

A Psicologia Corporal e a Bioenergética, desenvolvidas por Wilhelm Reich e Alexander Lowen, oferecem ferramentas valiosas por meio da respiração, dos toques, de diferentes manejos corporais e da expressão das emoções. Esses recursos ajudam a flexibilizar regiões tensionadas, permitindo que o corpo relaxe, que as emoções encontrem expressão e que o indivíduo volte a experimentar o prazer de viver de forma mais autêntica e conectada consigo mesmo.

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Valesca Hoffmann Mendes | Terapeuta Corporal Somática